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Quinta-feira, Novembro 13, 2003
ENTREVISTA COM JOSEFINA GAMBOA, Les Pénélopes Por André Deak
Numa estreita rua de Paris, numa pequena sala abarrotada de panfletos, livros, arquivos, computadores e mulheres que entram e saem, vivem as Penélopes. O objetivo delas é promover, editar e difundir informação do ponto de vista feminino, utilizando todos os tipos de mídia, defendendo toda atividade que proclame a mudança e a melhora a favor de todas as mulheres do mundo. Não é fácil.
Este ano, durante o Fórum Social Europeu, em Paris, também ocorre a primeira Assembléia Européia para o Direito da Mulher. Mais de 130 organizações de 37 países, entre feministas e outras, encontram-se para debater os direitos e as vidas das mulheres em sociedades neoliberais patriarcais. As Penélopes, claro, estão participando. Durante a preparação para o Fórum, depois de uma reunião com mulheres de 17 países que durou o dia todo e antes de corrigir um pedido de financiamento cujo prazo é urgente, a penélope Josefina Gamboa, argentina que vive na França há três anos, deu a seguinte entrevista:
A origem das Penélopes é muito interessante, porque foi um pequeno grupo determinado que rapidamente ganhou reputação e reconhecimento internacional. Como foi que tudo começou? As fundadoras foram mulheres combativas dos anos 1970, ligadas principalmente à comunicação. Nos anos 1990 o movimento feminista ficou um pouco esquecido, parecia que as conquistas tinham terminado. Até que houve uma marcha pró-aborto em Paris, pelo direito das mulheres, que reuniu milhares. Como assim? Se os direitos haviam sido conquistados, por que tantas mulheres saíram às ruas? Então elas perceberam que a luta ainda não tinha terminado e criaram Les Pénélopes, que é muito ligado à realidade, à atualidade, em como a situação mundial afeta as mulheres. A guerra do Iraque, os acordos econômicos, o que isso tudo tem a ver com o dia-a-dia.
Mas como foi que alcançaram um reconhecimento tão rápido? As Penélopes sempre estiveram na vanguarda em tudo o que fizeram. Quando fomos para a internet, fomos junto com a discussão do software livre, usando sistemas livres. Os artigos mensais (publicados na internet, porque não há dinheiro para papel e porque a rede tem um alcance enorme) começaram a ter repercussão. Em 1995 ocorreu a primeira conferência feminista da ONU; em 2000, na segunda, as Penélopes já foram convidadas. A comunicação é o ponto principal do grupo. Enviavam textos para jornais, depois foram convidadas para entrevistas; em 1999 fizeram um programa de televisão feminista, com vinhetas, tudo, semanal, que era difundido pelo site. Nenhum grupo feminista fez isso. O programa foi utilizado em várias redes. Hoje elas são convidadas para participar de várias palestras, debates, seminários. Estiveram no Fórum Mundial de Porto Alegre desde o princípio, e agora estão no Fórum Europeu e no Fórum Libertário. Criamos uma rede de contatos enormes, inclusive no Brasil, nossa parceria com a Lua Nova, desenvolvendo um projeto de Economia Solidária.
Agora vocês estão trabalhando com mulheres do Leste Europeu. Quais são as dificuldades? O leste se contaminou com o pensamento de "ter". O consumismo é muito grande. Além disso, desenvolveu-se uma desconfiança do próximo, algo que não será rápido transformar. Mas eles já perceberam que ter a Madonna em todas as ruas não é bom. Mesmo assim, ainda é bem complicado falar em "socialismo" ou "cooperativas". São palavras que carregam uma conotação bem ruim.
AGENDA - JORNADA PELA DEMOCRATIZAÇÃO DA MÍDIA Nos dias 8, 9, 10 e 11 de novembro ocorrem os primeiros atos e eventos que da Jornada pela Democratização da Mídia, campanha organizada pelo MST, CUT, Rede Social de Justiça e Direitos Humanos e UNE. Os primeiros atos públicos serão realizados em três capitais: Belo Horizonte (MG), nos dias 8 e 9, durante o Fórum Social Brasileiro, Rio de Janeiro (RJ), no dia 10 e São Paulo, no dia 11.
O objetivo da Jornada é marcar posição contra o atual cenário de concentração do setor de comunicações no País e promover um amplo debate sobre a questão. Além de defender a democratização da comunicação, a Jornada condena a criminalização dos movimentos sociais pela chamada grande imprensa.
Em Belo Horizonte, no ato realizado no Ginásio do Mineirinho dia 8, das 14h às 18h, estão confirmadas as presenças de João Pedro Stédile, da coordenação do MST, José Arbex, jornalista da revista Caros Amigos e do Jornal Brasil de Fato, Gustavo Petta, presidente da UNE, e ainda de diversos convidados internacionais: o norte-americano Norman Solomon, jornalista especializado na guerra contra o Iraque e autor de diversos livros, como "O Iraque na mira: o que a mídia não conta", a venezuelana Blanca Eekout, diretora do Canal Comunitário da Venezuela, Aixa Gonsalez, vice-presidente da União de Jornalistas Cubanos e Ali Nakhlawi, palestino, de origem libanesa, e um dor organizadores da União da Juventude Árabe para a América Latina.
No dia 9 de novembro, também das 14h às 18h, ocorre uma grande Reunião de Articulação da Jornada pela Democratização da Mídia, no campus da UFMG, ICB, sala 308.
Estudo feito ano passado pelo Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação sobre os meios de comunicação no Brasil mostra que apenas seis redes nacionais de televisão, Globo, SBT, Record, Bandeirantes, Rede TV! e CNT, controlam 667 veículos no país: 309 canais de televisão, 308 canais de rádio e 50 jornais diários. Às redes de televisão, somam-se outros quatro grandes grupos de mídia, os grupos Abril, Folha, RBS e Estado.
Essas dez empresas juntas controlam virtualmente tudo o que se vê, se escuta e se lê no país. A rede Globo é provavelmente a empresa que mais concentra mídia no país, controlando redes de TV por assinatura (Globosat, Sky e Net), rádios (CBN, rádio Globo), jornais (O Globo, Valor Econômico, Extra, Diário de São Paulo), revista (Época), internet (Globo.com), editora de livros (Editora Globo), gravadora (Som Livre) e uma produtora de filmes (Globo Filme). Mais de 40% dos brasileiros vêem a rede Globo de televisão todos os dias.
No dia 10, segunda-feira, as manifestações acontecem no Rio de Janeiro, no Teatro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI – Rua Araújo Porto Alegre, 71, 9º andar), às 19h. Estarão presentes João Pedro Stédile do MST¸ Marcelo Yuka, Gustavo Gindre, do Indecs (Instituto de Estudos e Projetos em Comunicação e Cultura) e convidados internacionais. Desde às 15h, estarão sendo promovidas por tevês e rádios comunitárias diversas atividades ligadas à comunicação democrática.
O evento no Rio conta com o apoio de diversas entidades, dentre elas o Núcleo Piratininga de Comunicação - NPC, MST, Jornal Brasil de Fato, Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social, Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social - ENECOS/Regional Rio, Diretório Central dos Estudantes Fernando Santa Cruz - DCE/UFF, Diretório Acadêmico de Comunicação - DACO/UFF, Centro Acadêmico de Comunicação Social - CACOS/UERJ, TV Comunitária de Niterói, TV Caos, Radiola na Praça, Consulta Popular, ONG Circo Esperança, Associação de Moradores e Amigos de Laranjeiras, SINDIPETRO-RJ, Bicuda Ecológica, Rádio Kaxinawá e Jornal A Verdade.
Já o ato paulista será realizado no TUCA (Teatro da PUC, Rua Monte Alegre , 1024 – Perdizes), às 20h do dia 11 de novembro, terça-feira. Participam do debate José Arbex Jr., editor da revista Caros Amigos; Laurindo Leal Filho, jornalista e membro da ONG Tver; Sergio Suiama, procurador da República; e um representante do Ministério das Comunicações. Estão previstas, também, intervenções de João Pedro Stédile (MST), Gustavo Petta (UNE), Pedro Malavolta (ENECOS), Maria Luiza Mendonça (Rede Social de Justiça e Direitos Humanos) e de um representante da CUT.
Haverá, ainda, a participação do grupo teatral Cia do Latão, no início, e do músico Paulo Freire, no encerramento.
O ato de São Paulo conta com o apoio de Brasil de Fato, MST, UNE, CUT, Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, INTERVOZES, Departamento de Jornalismo PUC / SP , Revista Sem Terra, Jornal Sem Terra , Caros Amigos, Correio da Cidadania, Unidade/Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, ENECOS – Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social , OPASQUIM21, OBORÉ, Carta Capital, Revista Reportagem, Revista Fórum, CMI – Centro de Mídia Independente, Carta Maior, Rádio Anúbis, Centro Acadêmico Benevides Paixão - PUC/SP, Portal Vermelho, Portal Porto Alegre 2003; Apeoesp; Sindicato dos Metalúrgicos, Sindicato dos Bancários, Conselho Federal de Psicologia, Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), Pastoral Operária, Coletivo Paraná de Estudantes de Comunicação Social, CACOS ( CA de Comunicação da UFPR) e RSMB – Rede Solidária da Música Brasileira.
Adesões à Jornada podem ser feitas pelo e-mail: jornadamidia@intervozes.org.br
Mais informações sobre a Jornada pela Democratização da Mídia podem ser obtidas com Cristiane Gomes (11 3361-3866/jst@mst.org.br)
ATERRISANDO EM SOUTH BEACH João Pedro Stédile, um dos coordenadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, disse, em tom jocoso, que se os membros das elites brasileiras continuarem a impedir a realização das reformas prometidas por Lula, eles voltarão a se reunir, em breve, em South Beach, Miami, terra prometida aos líderes entreguistas da direita latino-americana.
A frase foi recolhida por Naomi Klein e citada em seu mais recente artigo, que versa sobre a reunião de organização da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). A frase de Stédile é um aviso: Miami “promissed land of the right wing” está de braços abertos para abrigar ruralistas, deputados falsários, ministros entreguistas e líderes sem palavra.
Por lá, já estão abrigados os ex-presidentes da Venezuela e do Equador, Carlos Andres Perez e Gustavo Noboa, o golpista Carlos Fernandez, um dos autores da tentativa frustrada de derrubar Hugo Chávez e, o recém chegado Gonzalo Sanches de Lozada, destituído da presidência da Bolívia devido a um imenso levante indígena.
Nos anos 90, Miami abrigou Fernando Collor de Mello, quando este foi arrancado da presidência do Brasil por uma articulação da sociedade civil e dos partidos ditos “progressistas” – um balaio que inclui trabalhistas, social-democratas, comunistas arrependidos e liberais culpados.
A cidade ser abrigo para essas ilustres criaturas é uma questão de justiça. Afinal, elas passaram suas vidas políticas procurando transformar os seus países em um lugarzinho similar a South Beach. Defenderam – e continuam a defender – um modelo de desenvolvimento excludente, no qual o luxo das mansões de veraneio é mantido pelo esforço indigente e indocumentado dos imigrantes, dos migrantes, dos fodidos.
O processo de miamização da América Latina, capitaneado por figuras como as supracitadas, está em fase de derrocada. Mas o reflexo dessa ação devastadora permanece no cotidiano dos países, açoitados pela falta de emprego, de renda e de dignidade.
A frase do Stédile é genial. Profética. Seria bom que o conflito aberto ocorresse logo. Assim devolveríamos a Miami o que é de Miami. Esse lixo de proxenetas vendilhões. E poderíamos começar a aplicar, sem interferência, um novo modelo de desenvolvimento, mais justo e solidário.
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11:49 AM
by Rodrigo
Quarta-feira, Outubro 29, 2003
CONTOS DE BORDEL: UM LIVRO PARA MANTER A MEMÓRIA VIVA
Na próxima quarta-feira, 5 de novembro de 2003, a partir das 19 horas, as jornalistas Ana Laura Diniz, Renata Bortoleto e Michele Izawa autografam o livro Contos de Bordel – A prostituição feminina na Boca do Lixo de São Paulo. A festa, com direito a primeiro chope de graça, ocorre ali no Canto Madalena, na rua do Sacolão, na Vila Madalena, em São Paulo.
A Ana Laura foi uma “quase-membro” deste EmCrise. Digo quase porque esteve presente em várias reuniões, debateu, propôs, mas acabou não publicando nenhum texto, nem no site, nem no blog. Uma pena para os nossos leitores.
Ainda não tive o prazer de ler o livro. Li, à época em que ainda era um projeto de conclusão de curso da Faculdade Cásper Líbero, alguns trechos. Agora, pude conhecer algumas linhas por meio de um e-mail de divulgação no qual enviaram-me um capítulo. O que vi? Gostei.
Ana Laura, Renata e Michele submergiram ao mundo das prostitutas, gigolôs e rufiões para prospectar histórias reais desse universo de relações intensas e demasiado humanas. Histórias de bordéis, que cheiram à ficção, mas que devem ser lidas como verdade – porque são.
Cito aqui o que diz sobre os contos Marcelo Coelho, jornalista da Folha de S. Paulo, ex-professor e renomado escritor. “‘Como manter a naturalidade durante uma entrevista enquanto duas pessoas faziam sexo na mesa ao lado?’ Esta não é a menor das dificuldades enfrentadas - e vencidas - pelas autoras desta reportagem sensível e marcante sobre o mundo da baixa prostituição em São Paulo. Em seu livro de estréia, Renata Bortoleto, Ana Laura Diniz e Michele Izawa dão mostras de maturidade e compreensão humana raras nos mais experientes jornalistas".
O fito desta nota era mesmo exaltar o belo trabalho feito pelas três companheiras – estudantes à mesma época que a maioria dos membros deste coletivo. A história dessas merdunchas – peço permissão para assim identificar as prostitutas da boca-do-lixo (o quadrilátero formado pela rua Aurora e as avenidas Ipiranga, São João e Rio Branco), porque era assim que João Antonio qualificava a patuléia que vive no fio da navalha, sem eira nem beira, praticando pequenas e grandes contravenções – escancara um mundo de porres e rebordosas, de coisa e loisa, que sempre existiu e sempre existirá. Mas que nem sempre querem lembrar que existe.
O BRASIL TE ESPERA EM BELO HORIZONTE A galáxia de Porto Alegre está a caminho da capital mineira. Porque "Um outro mundo é possível. Um outro Brasil é necessário"
O Fórum Social Mundial de 2004 será na Índia. Segundo avaliações do Conselho Mundial, a perspectiva é de que seja um fórum apenas indiano. Nem os países da Ásia estão se mobilizando. No entanto, o Conselho acredita que o processo de multiplicação dos Fóruns Sociais – já foram realizados, entre outros, fóruns na Colômbia, em Málaga e logo ocorrer na Europa. Essas reuniões garantem a continuidade do processo, que volta a envolver o mundo em 2005, com o retorno da galáxia a Porto Alegre.
Uma das etapas desse processo de multiplicação ocorre de 6 a 9 de novembro, em Belo Horizonte, com a realização do Fórum Social Brasileiro. O FSB deve envolver mais de 1500 entidades. Até agora, mais de mil se inscreveram, sendo 40 de outros países. Todos os Estados brasileiros já estão representados por entidades e participantes. A perspectiva dos organizadores é reunir 20 mil ativistas na capital de Minas Gerais. A Universidade Federal vai ficar pequena para tanta efervescência política e cultural.
Durante o FSB, três eixos de discussão serão estimulados. 1. Império, onde serão debatidas questões globais como a ALCA. 2. O Brasil que temos e o Brasil que queremos, um espaço destinado às conquistas das lutas sociais, às dificuldades enfrentadas até agora e ao que virá daqui para frente. 3. Movimentos Sociais, cujo objetivo é promover o fortalecimento das entidades e das redes sociais. Não se trata, como esses eixos revelam, de um debate sobre o governo Lula, seus rumos e descaminhos. É mais amplo, ainda que o governo seja um ponto de pauta.
O Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, que conta com a participação de inúmeros membros deste Coletivo EmCrise, realiza duas atividades durante o FSB. Os seminários Comunicação Social: qual a pauta da sociedade civil? e Por um outro Jornalismo: o papel da imprensa crítica no contexto atual. O Brasil nos espera em Belo Horizonte.
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2:00 PM
by Rodrigo
Quarta-feira, Outubro 22, 2003
SAKAMOTO VENCE O VLADIMIR HERZOG O amigo, jornalista e cientista político, Leonardo Sakamoto, venceu o prêmio Vladimir Herzog (se você não sabe quem foi Vladimir Herzog, clique aqui) de melhor reportagem de revista, pela matéria “Os homens-tatu do Sertão”, publicada na Problemas Brasileiros. Esse texto aqui é para lhe dizer parabéns!
Lembro-me do Léo, na redação da Ciranda Brasil, com as mãos cortadas devido a um acidente, escrevendo a matéria que lhe rendeu o prêmio Vladimir Herzog. A cadeira que o transportava quebrou enquanto ele descia ao fundo do poço para fotografar a realidade precária dos garimpeiros de caulim, em Equador, sertão do Rio Grande do Norte. A saída foi se escorar na corda e descer ao chão “escorregando” com as mãos. O resultado foi uma profunda queimadura. Léo, no entanto, não esquentou. Ao cabo, era uma recordação, de mais uma aventura.
O repórter Leonardo Sakamoto voltara revoltado com o que vira no sertão do Rio Grande do Norte. Essa revolta se traduziu no texto que escreveu, em que se destaca uma comparação entre a realidade dos homens-tatu, reféns de uma secular exclusão, e a situação de profunda discrepância entre ricos e pobres no cenário geopolítico internacional. O que Léo queria com isso era mostrar que a pobreza dos extratores de caulim era também resultado da ação criminosa dos países desenvolvidos com relação às nações em desenvolvimento.
Lembro-me que ouvi, dele: “acho que não vão publicar o texto na íntegra. Fodam-se! Se eles quiserem, que cortem”. Não sei se o texto não foi publicado na íntegra, na revista, mas a versão que li me parecia bem fiel àquela que o repórter queria publicar. Uma história que nos imputa a refletir sobre o País que temos e, naturalmente, nos leva a pensar sobre o Brasil que queremos. Esse trabalho do Léo, que funde jornalismo e ativismo, reportagem e direitos humanos, é um exemplo para quem ainda acredita que é possível ser repórter e com o jornalismo ajudar a mudar o mundo.
Léo é um dos poucos caras que eu conheço que pode dizer, com o peito cheio de orgulho: eu sou repórter. Mas não só. Jovem ainda – deve ter uns 26 anos – está se doutorando em ciência política. Sua tese é sobre a resistência timorense, uma continuidade do seu trabalho de mestrado. Também é um ativista dos Direitos Humanos. Uma dessas figuras que não poupa esforços em nome de uma causa. Além do que, é um camarada bom de papo, chegado no piada escatológica, numa mulher bonita e extremamente arguto em seus raciocínios sobre a realidade brasileira.
Há dois anos, criou o Repórter Brasil, um site com reportagens feitas por ele e por alguns outros companheiros que estudaram na Escola de Comunicação e Artes da USP (ECA). Foi assim que o conheci. Nós estávamos criando o Em Crise (com pretensões muito mais modestas que as dele). Um amigo em comum disse que havia um jornalista na ECA com um trabalho de reportagem que valia a pena conhecer. Depois de um tempo, nos encontramos. Tive o prazer de trabalhar com ele, por um curto período de tempo, na tentativa de construção da Ciranda Brasil. O Repórter Brasil agora é uma Ong. Essa é uma história de luta pelos direitos humanos que apenas começou.
Confira a lista de vencedores do prêmio Vladimir Herzog, que será entregue na próxima segunda-feira, dia 27 de outubro, no Memorial da América Latina, em São Paulo.
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2:51 PM
by Rodrigo
Sexta-feira, Outubro 10, 2003
REFLEXÕES SOBRE UM MUNDO TRÁGICO Essa aqui é do Joaquim Toledo Júnior, grande colaborador deste pequeno blog.
Acompanhando pelos jornais as notícias a respeito da sucessão do governo do estado da Califórnia (EUA), uma idéia estúpida me veio à cabeça: quem sabe não estaríamos, no final das contas, em melhor situação se os nazistas tivessem conquistado o mundo. Seriamos oprimidos, humilhados, submetidos às mais rígidas determinações, é verdade – mas tudo isso ao som de Wagner, e quem sabe teríamos monumentais edifícios projetados por Albert Speer decorando o centro das nossas cidades.
Em vez disso, dado o desfecho sempre celebrado da infame Segunda Guerra Mundial, temos hoje de temperar aquela mesma opressão, humilhação e submissão com a canastrice pervertida de um Arnold Scharzenneger e todos os demais penduricalhos de uma versão ridícula e monstruosamente kitsch da transformação da política em espetáculo.
É um mundo trágico aquele no qual todas as alternativas a escolher são incorretas.
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6:07 PM
by Rodrigo
Quarta-feira, Outubro 08, 2003
Morre a reportagem. E a culpa não é dos movimentos
A morte do fotógrafo Luís Antônio da Costa, no último 23 de julho, num terreno ocupado pelos sem-teto do MTST, em São Bernardo, parece representar, também, a morte da reportagem. Lacosta, como era conhecido, estava trabalhando como free lancer da revista Época. A propósito disso, pouco ou nada se falou, na imprensa, sobre a precariedade das relações entre o profissional e o veículo para que trabalhava.
A Época promoveu quatro cortes de pessoal em pouco mais de um ano, e a coisa não parou por aí. A política de redução de custos na revista provocou mais 13 demissões em junho, editores incluídos. Isso mantém, por exemplo, situações como a da Editoria Mundo, cuja cobertura vem sendo feita há tempos por apenas um profissional. As lacunas e o acúmulo de tarefas têm sido contornados com a contratação de estagiários. “Trezentos reais”, informa uma editora, quando precisa contratar alguém. Ela não esclarece aos estudantes de Jornalismo que a jornada pode chegar a 12 horas. “Não temos dinheiro para pagar salário”.
Em outubro do ano passado, a Globopar, holding da qual fazem parte a prestadora de serviços de internet, a gráfica e também a publicação das revistas da Editora Globo, pediu moratória das dívidas. O prejuízo teria sido gerado, entre outras coisas, pelo gasto com cabeamento com fibra óptica para recepção de televisão a cabo. Alguém ignorou, nessa empreitada, que o brasileiro não poderia pagar por esse produto. O resultado é que as dívidas das empresas Globo chegam, hoje, a um bilhão de dólares.
Essa crise parece explicar por que a redação da Época está sempre cheia, apesar das demissões. Ninguém sai. A “cobertura” por telefone e pela internet tem sido uma alternativa para reduzir os gastos com equipes de reportagem. Época fez o assassinato do fotógrafo Luís Antônio da Costa parecer uma cruzada contra a imprensa, sem que nada realmente fosse evidência disso. Se dependesse de Época, mesmo que essa guerra existisse, não haveria suficientes vítimas. Ter um repórter na rua, com a reportagem quase em extinção na revista, foi mero acaso.
Na mesma semana do ocorrido, mais dois fatos marcaram, de forma emblemática, o tipo de cobertura ora praticado em grande parte da imprensa no Brasil, na Época em especial. Um avião particular cai sobre quatro casas em Sorocaba, em 24 de julho. Morre o piloto e ficam feridos o co-piloto e o dono do avião. É descartada uma cobertura mais ampla, porque não há verbas para destacar repórteres para o local. Uma estagiária deve redigir uma nota de mil caracteres sobre o número de aviões particulares no país. Sobre as casas destruídas e seus moradores, nada. Não há nenhuma recomendação extra para a checagem dos fatos, além de que ela seja feita por telefone e pela internet.
Na assessoria de imprensa do DAC, no Rio de Janeiro, num dos contatos feitos, um jornalista entediado informa à repórter: “Tudo o que você quiser saber está na página do DAC, na internet.” Instado a dar uma declaração, pelo menos, ele encerra a conversa: “A gente já põe na internet que é pra não dar trabalho. Você abre nossa página e pega o que quiser. Se tiver alguma dúvida, liga de novo”.
No mesmo dia, Paulo Roberto Rocha, é assassinado o coordenador dos presídios de Bangu, no Rio de Janeiro. “Tem que dar”, determina o editor. A reação é automática, literalmente. Uma repórter escolhe, de forma aleatória, três sítios na internet para a “checagem” da informação. Neles não há acordo nem quanto à hora do crime nem a onde o tiro acertou. Entre as informações que indicam a nuca e as costas, 20h30 e 23h, é uma estagiaria quem “escolhe”: Rocha foi assassinado às 23h com um tiro nas costas. Nenhum contato com a polícia do Rio, com o necrotério, com repórteres locais – por acaso, da mesma empresa jornalística – , nada.
Edição fechada, revista nas bancas. “Chega” é a indignada manchete sobre fundo preto, com destaque para a morte do fotógrafo e as ocupações do MTST e do MST pelo país. Chega de quê? De ocupações, talvez. Fossem outros tempos, a “indignação” de Época serviria para clamar poder de polícia contra os movimentos. Chega de quê, mesmo? Seria um basta contra o assassínio em massa de jornalistas cumpridores de seu dever? Então a imprensa deveria começar sua justiça em suas próprias redações, oferecendo condições dignas de trabalho, para começar.
Texto publicado na revista diálogos&debates, setembro de 2003. A versão EmCrise é mais virulenta.
NÃO DEIXEMOS O PORTAL DA CAPES ACABAR Recebi esta mensagem hoje. Republico, dada sua importância. Vamos lá gente, vamos acessar o site. Ponham no favoritos e, todo dia, entrem um pouquinho...
Leiam e divulguem, é interessante e muito útil para quem pretende continuar os estudos, a CAPES tem artigos de praticamente todas as áreas de estudo com acesso GRATUITO e será desativado por falta de acesso (isso porque não há divulgação)...
Como alguns sabem, o MEC está pensando em fechar o portal de periódicos da CAPES. De fato, o que eles dizem é que o custo é alto e pouca gente usa. Particularmente, acredito que seja pouco usado porque é pouco divulgado. Para os muitos que não conhecem, o portal, que só pode ser acessado de dentro das universidades públicas brasileiras, fornece acesso a milhares de periódicos científicos de praticamente todas as áreas de estudo (entre eles vários nacionais e internacionais de economia, direito, computação, engenharias, medicina, etc).
Para se ter uma idéia, sem o portal você teria que pagar algo como uns 20 dólares POR ARTIGO. Proponho, portanto, que divulguemos mais o portal, que é uma fonte riquíssima de conhecimento científico, e que faria muita falta. Temos sim que defender a manutenção do mesmo, mas paralelamente divulgar, de forma a melhorar a abrangência do gasto. Para fazer a boa ação, clique aqui.
O JEITO MINEIRO DE FAZER POLÍTICA Essa é uma notícia, repassada por um companheiro mineiro, indignado com o seu estado de origem - como a todo mineiro, a situação lhe causa dor n'alma. A história foi divulgada pelo sindicato dos jornalistas de Minas Gerais, e revela que, em termos de truculência, até mesmo o mais destemperado petista tem muito a aprender com o tucanato. Serra era um adepto dessa prática política também, quando ainda tinha poder. Aécio dá mostras de que está no caminho certo. Se continuar assim, corre até o risco de concorrer à presidência do Brasil.
- Estado de Minas demite editor de Economia
Luiz Otávio, de Belo Horizonte
O editor de Economia do jornal Estado de Minas, Ugo Braga, foi demitido porque publicou uma nota sobre o desempenho do governador Aécio Neves, sob o título "Igual a Covas", revelando que o instituto de pesquisas Brasmarket,de São Paulo, havia realizado uma sondagem nacional sobre o desempenho de todos os governadores estaduais, em seu primeiro ano de mandato. Dos 27 mandatários, o chefe do executivo mineiro ficou no antepenúltimo lugar, ganhando apenas do sergipano João Alves (PFL) e de Francisco Flamarion (PSL), de Roraima.
A informação foi divulgada pelo site Jornalistas de Minas, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG).
Ugo Braga revelou que o problema começou no início da semana passada. Após a costumeira reunião matinal de pauta, ele foi chamado à sala do diretor de Redação, Josemar Gimenez Resende, que lhe comunicou que a informação publicada havia desagradado o diretor executivo do EM, Álvaro Teixeira da Costa. Ugo argumentou que era uma "informação importante" para os leitores, mas mesmo assim a demissão foi oficializada.
O presidente do SJPMG, Aloísio Lopes, declarou que o afastamento "é mais uma prova de que as denúncias formuladas pelo Sindicato, a respeito da censura à imprensa nos veículos de Comunicação mineiros, são verdadeiras". O sindicalista acrescentou que "a pressão que o governo de Aécio Neves faz sobre a linha editorial dos jornais é real, o que configura mais um atentado à liberdade de Imprensa e ao direito de Informação".
O caso será encaminhado à Comissão de Ética da entidade. Segundo o site do SJPMG, diretores do Estado de Minas foram procurados, mas nenhum deles foi localizado ou deu retorno às ligações. Já o coordenador geral da Secretaria de Comunicação do governo de Minas, jornalista Antônio Achiles, comentou apenas que "o governo mineiro não tem que se pronunciar a respeito de assuntos internos dos veículos".
O SJPMG, nas duas últimas edições de seu órgão oficial, o jornal Pauta, tem travado uma polêmica com o governo, quem acusa de exercer pressões para que não seja publicada qualquer notícia que comprometa a imagem institucional do governador Aécio Neves, além de denunciar que vários jornalistas, que pediram anonimato, se queixam sistematicamente que as matérias que fazem sobre a administração em muitas ocasiões são deturpadas ou ignoradas pelos veículos.
O Pauta também divulgou reclamações de militares e policiais que lideram suas associações de classe, queixando-se da parcialidade dos jornais na cobertura de greves ou na divulgação correta de suas manifestações, como assembléias e passeatas.
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11:12 AM
by Rodrigo
Sexta-feira, Setembro 19, 2003
HISTÓRIA ORAL DA RODOVIÁRIA “Vou escrever a história informal da multidão sem terno. O que têm a dizer sobre seu trabalho, seus amores, sua alimentação, farras e desgostos. (...) A história oral é uma mistura e um enorme caldeirão de coisas ouvidas, um repositório de verborragias, uma coleção de baboseiras, conversas, falas solenes, insanidades verbais, asneiras e absurdos”. (Joe Gould, citado por Joseph Mitchell )
1. A Rosa
Dez horas da noite.
Dona Rosa continua sentada: mãos juntas em cima do colo, olhar calado, blusa de lã.
Sapatos brancos, ou quase brancos.
Setenta anos –
Oitenta, talvez.
São Paulo tem muita violência, né, muita morte.
“A gente vê nos jornais”, é o que diz Dona Rosa.
Saia azul marinho tão comprida, para o corpo miúdo e encurvado.
Coque apertado e impecável, bem no topo da cabeça.
Dona Rosa diz que a Marinha Britânica vem buscá-la.
***
O nome dela não é Rosa. Nunca foi. Deve ser algo como Natasja Fiodorovich, espiã austro-húngara. Especialista em criptografia. Mas ela se recusa a dizer o nome. Também não conta de onde está vindo. “De outro Estado”, afirma, incomodada. Ela repete a toda hora que não tem nada a dizer. Não tem nada pra dialogar. Não tem nada pra falar. Nada. Nada mesmo. Mexe-se na cadeira, encarando tudo com os olhos negros e agitados. Às vezes, afirma morar na Consolação. Depois, revoga tudo o que disse e também todas as disposições em contrário.
O problema é que a Marinha Britânica só vem amanhã, ela deixa escapar de repente.
- Amanhã? E você vai ficar aqui sozinha?
- Não, não. – Ela olha para os lados, apreensiva, e sussurra: – “Eles” estão aqui.
Silêncio. Momentos de suspense. Eu e Solange nos aproximamos. Com os olhos arregalados e o tom de segredo, pergunto, meio sem jeito:
- ... “Eles” quem?
- Eles. – Dona Rosa fica impaciente e responde mais alto, bem brava, como se eu fosse maluca:
SOCIOLOGIA VIRTUAL O site www.sociologia.de reúne textos de autores clássicos e contemporâneos. Em suas páginas, pode-se encontrar Marx, Hegel, Schopenhauer, Espinoza, Russel, Heidegger, Engels, entre outros. Além dos grandes, nomes atuais que trazem grande contribuição para o debate sobre os rumos de nossa sociedade. O organizador, no Brasil, é o professor da Unicamp, Jorge Machado. No site, há cinco foruns temáticos abertos. A participação, segundo Machado, tem sido de apenas de 0,2% dos visitantes (15 mil/ mês).
Machado também é organizador do livro chamado Trabalho, Economia e Tecnologia: Novas Perspectivas para a Sociedade Global (Ed. Tendenz/Praxis, 210 pp). O livro conta com a participacao de Manuel Castells, Giovanni Alves, Francisco Duran, Manuel Belo Moreira, entre outros autores e é distribuído apenas pela Internet e em algumas livrarias universitárias, como a do IFCH/Unicamp. Nele sao discutidos temas atuais como internet, hackerismo, globalizacao e redes, impactos da tecnologia na sociedade (e nas cidades), economia e trabalho.
O livro pode ser adquirido por R$ 14 + correio (R$ 3). Para mais informacoes, clique aqui.
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9:40 AM
by Rodrigo
CARTA DA VIA CAMPESINA AO PRESIDENTE LULA Cancún, 12 de septiembre de 2003
La Vía Campesina Internacional, organización que aglutina a unos 60 millones de personas del campo en el mundo entero, quiere expresar la más profunda preocupación por el acoso militar del cual está siendo objeto el Movimiento de Trabajadores Rurales Sin Tierra de Brasil, cuya sede en Sao Paulo ha sido cercada por la policía desde hace varios días y que, además, arroja ya el saldo del arresto de cinco dirigentes de los 11 amenazados con mandato de prisión, que se suman a decenas de trabajadores y trabajadoras sin tierra encarcelados en el país en este año.
Para nuestra organización que sustenta su propuesta en la justicia social, los derechos humanos y la soberanía alimentaria, donde las personas del campo puedan vivir con dignidad, la propuesta de una reforma agraria integral, como la reivindicada por el Movimiento Sin Tierra, es una condición indispensable para garantizar el propio mantenimiento del campo como entidad social, que está siendo amenazado por la avidez de las corporaciones transnacionales y los grandes capitales. Es también motivo de nuestra preocupación que estas acciones antidemocráticas, que ponen en entredicho el sustento democrático y de derecho con los cuales se identifica su país, se expresen ahora que usted, un luchador por los derechos de los trabajadores, gobierna el país.
Para nuestra membresía de los cinco continentes, reunida en Cancún (México) hoy 12 de septiembre de 2003, es inadmisible que en su país y bajo su gobierno, se esté agudizando la tendencia a la criminalización de movimientos sociales, que actúan en pos de la obtención de los derechos humanos integrales para las personas del campo. Esperamos tener una respuesta que explique a los y las campesinas del mundo el por qué en Brasil y bajo su gobierno se ha agudizado la arremetida contra los trabajadores rurales sin tierra, al punto que en lo que va del año se registran ya cuarenta y seis trabajadores rurales asesinados en su país, mientras continúa campeando la impunidad por casos similares registrados anteriormente.
Agradecemos su atención y reiteramos nuestra expectativa de un inmediato restablecimiento de los derechos de los trabajadores rurales y la vigencia de los derechos humanos en su país. Confiamos en que se erradicará la impunidad que pesa sobre los crímenes cometidos contra los trabajadores sin tierra y que Brasil impulsará una reforma agraria integral que permita restablecer los derechos económicos y sociales en el campo.
Del Señor Presidente muy Atentamente
Coordinación Internacional Vía Campesina Posted
9:29 AM
by Rodrigo
Domingo, Agosto 31, 2003
Pastelão no Teatro do Sesi
30 de agosto, 17h30. O número de pessoas em frente ao Sesi da Paulista 1313 faz crer que nem todas poderão assistir à sessão das 20h do penúltimo dia de Mephistpopholes, produção de Antonio Abujamra. Os termômetros marcam 14o, mas o vento faz parecer muito menos. Iriam todos embora se um segurança do Sesi, sem nome na lapela, não organizasse a fila: “É uma fila de risco”, avisa. “Pode ser que entre”.
O tempo passa e nada de a fila andar. Mas entram, sem fila, convidados especiais. Entre eles, estudantes de Jornalismo, que são vaiados. A fila transforma-se numa massa irritada com a indefinição dos seguranças. Brenda Galvão, professora, anda entre eles, querendo informação: “Vocês não têm outra forma de organizar a entrada? Por que a gente tem que esperar tanto?” Um dos seguranças diz a ela que todo dia é a mesma coisa. “No Piratas do Tietê (espetáculo anterior, levado no Sesi), isso acontecia direto, de ficar gente de fora”. Curiosamente, outro segurança, também sem crachá, diz que isso nunca aconteceu no Piratas. “É culpa do Abujamra”, acusa. “Ele devia ter alugado outro teatro. Devia ter ido pro Vergueiro”. E anuncia, enigmático, o olhar perdido no horizonte: “Daqui a dez minutos vai começar o confronto físico”. São 19h40.
Uma viatura da polícia militar estaciona na calçada. Um policial dá orientações inaudíveis pelo megafone. Cerca de 250 pessoas se comprimem em frente à escada para o piso inferior. Na parte de baixo, bombeiros, policiais e seguranças nervosos pedem calma. “Eu estava pedindo que vocês fossem inteligentes”, ironiza alguém, respirando com dificuldade no meio do tumulto. Na “organização” dessa entrada, a logística esqueceu de tirar as peças de ferro que demarcam filas. As pessoas, descendo, empurradas, tentavam retirá-las para não cair sobre elas.
No piso inferior, outra fila e mais nervosismo. Desta vez, alguém de nome Silvio avisa que só entrarão 120 pessoas. Os demais deverão pegar ingressos para a sessão das 18h, no domingo. Como ele não parece um segurança, as pessoas, indignadas, perguntam qual sua função ali. “Não sou nada”, responde, afastando-se.
Um casal de barrados fura a fila. Mais gritos nervosos e vaias. Um policial militar aborda esta repórter EmCrise. Ele também não tem identificação. “Você é jornalista?”, pergunta, olhando para minha caneta e as anotações que faço no guardanapo do tiozinho da pipoca. “Não”, respondo. “Estou colaborando com você”, ele diz. “Por que você não quer colaborar comigo?” “Sou estudante de Jornalismo, não sou jornalista. Escrevo para o EmCrise, acho que o senhor não conhece”. O guarda grita “Sérgio” para o grupo de bombeiros, policiais e seguranças. Atende um homem de casaco e calças azuis, com uma insígnia dourada em forma de asas na lapela. “O senhor é da Aeronáutica?”, pergunto. O pessoal da fila ri. A coisa toda virou pastelão. “Não sou da Aeronáutica”, ele diz. “E você tem que ligar no Sesi na segunda-feira, na assessoria de imprensa”.
Num papel distribuído para tentar acalmar as pessoas, vejo que há uma cota de 20 ingressos reservados à imprensa. Mas que repórter EmCrise quer perder o espetáculo de falta de organização do lado de fora?
Recebi pelo correio um curioso livreto de um senhor chamado Zadoque, que compilou 161 endereços, horários e telefones dos sebos de São Paulo. Taí uma pessoa que realmente faz jus à existência. Neste site (http://zadoque.tripod.com) é possível baixar a lista completa, em html ou e-book.
Há também alguns mapas - como os do Centro Velho e República - com alfinetinhos virtuais nos lugares onde há sebos/livrarias, de modo a facilitar a exploração intensiva. Difícil mesmo é traçar o caminho da romaria de maneira lógica, sem seguir o desenho de um dragão irlandês comendo um talo de alface. É impressionante atestar a existência de sebos em locais jamais imaginados - eu, por exemplo, encontrei um deles em pleno Condado do Mandaqui, astutamente disfarçado sob um toldo verde de cabeleireiro (Laura's, manicure/depilação/feng-shui). Lá, muitos dos livros ainda estão metidos em caixas ou em desordem total - a dona sempre tem as mãos cheias de maionese e esconde os Will Eisner para que ninguém possa comprá-los. Eu, se tivesse um sebo, também ia disfarçá-lo muito bem. E nunca venderia os Cortázares.
Posted
1:01 AM
by Vanessa
Sábado, Agosto 09, 2003
CONVIDEM-ME, POR FAVOR Saiu no Estadão:
A mania chamada flash mob - algo como turba-relâmpago, em que uma multidão mobilizada por e-mail surge de repente - chegou na noite de anteontem à Times Square, marco da cidade de Nova York. Cerca de 300 pessoas entraram na loja de brinquedos Toys 'R' Us e, como em transe, ficaram olhando o dinossauro gigante que ruge para os fregueses. Então se jogaram no chão, gritando e levantaram-se agitando as mãos. Enquanto funcionários corriam para chamar a segurança, a multidão se dispersou tão rápido como se reunira.
A flash mob foi a sexta em Nova York e a última de uma série que começou em junho e se espalha pelo mundo. Via e-mail, as pessoas são convidadas a ir para determinado lugar, em determinada hora, e recebem instruções para alguma atividade absurda. Já houve manifestações em pelo menos 40 cidades.
Ainda na noite de quinta-feira, em Londres, foi realizada a primeira flash mob da Grã-Bretanha. Mais de 200 pessoas invadiram uma loja de sofás em Tottenham Court Road e ligaram pelo celular, para amigos, elogiando as mercadorias. Logo depois, todos sumiram. "Minha primeira reação foi pensar que havia uma briga", afirmou o gerente da loja, Derrick Robinson, que viu a multidão se aproximar quando encerrava o expediente. "Depois, pensei que fosse alguma celebridade."
(...)Na cidade americana de São Francisco, centenas de pessoas ficaram girando como crianças. Em Dortmund, Alemanha, uma multidão invadiu uma loja de departamentos e cada participante comeu uma banana.
A primeira grande flash mob foi na loja Macy's, no centro de Nova York, em junho. Alguém que se identificou como Bill enviou uma carta para listas de e-mail convidando os destinatários a se reunir no 9.º andar, na sessão de tapetes. Cerca de 100 pessoas marcharam escada acima e puseram-se a examinar uma pilha de tapetes. Logo depois, saíram sem dar nenhuma explicação aos atônitos funcionários.
Fama - Desde então, as flash mobs surgem quase diariamente. Boston, Nashville, Roma, Cingapura, Amsterdã e Paris são algumas das cidades mais recentes. Na Grã-Bretanha, há eventos planejados em Londres, Birmingham e Sheffield. A mania concentra-se nos EUA e Europa - especialmente Alemanha, onde há atos planejados em mais de 20 cidades.
Parte do apelo deve-se a sua natureza inexplicável. "Ninguém consegue controlar, nem compreender", diz Sean Savage, um desenhista de São Francisco que escreveu sobre o fenômeno no site cheesebikini.com.
(...)"A idéia perderá a força, se as pessoas só ficarem repetindo coisas que já foram feitas, batendo palmas em lojas e girando na rua", diz Savage. "A menos que as pessoas tenham novas idéias, isso morrerá logo."
Uma nova idéia é a antimob, sugerida por alguém que participou de uma flash mob em Minneapolis (EUA): esvaziar um local, ao invés de invadi-lo. "A antimob exige pouco dos participantes", escreveu o proponente, no site brooklynmoblog.blogspot.com. "Assim, bilhões de pessoas, mesmo sem saber do não-evento, estarão participando deste primeiro exemplo de arte não-performática."
GREVE NA CÁSPER
Já que ficou claro que a única saída para todo esse aborrecimento da Cásper Líbero fica no Térreo (e é bom descermos de elevador porque vai mais rápido), algumas sugestões para a paralisação ficar menos irritante e mais assustadora:
1- Em frente ao cabeção dourado do Cásper Líbero, centenas de pessoas de joelhos, entoando mantras repetitivos em romeno e deixando saltenhas de frango como oferenda ao Ídolo de Ouro e Narinas Largas.
2- Dezenas de alunos lotam cada elevador e se põem a apertar todos os botões neuroticamente, a passear pelos andares do prédio. Ninguém entra, ninguém sai. As escadas também estariam cheias de estudantes, subindo e descendo sem rumo certo e cumprimentando o diretor efusivamente com vistosos tapa-olhos.
3- A uma hora exata da noite, todos os alunos se jogariam pelo chão dos corredores e, deitados, começariam a correr como o Homer Simpson, em círculos, o mais rápido possível. Até o ombro ficar machucado.
4- Ou simplesmente todos poderiam andar a esmo pelos corredores, trombando-se, abrindo e fechando portas, pedindo xerox na CENTRAL DE CÓPIAS e vagando pela sala do diretor e coordenadoria de PP, mudos, com uma expressão muito séria de que precisam fazer algo mas sofrem de hipotireoidismo e esquecem facilmente.
Garanto uma rápida vitória psicológica sobre os nervos dos envolvidos, que começarão a chorar copiosamente e reclamar da falta de coerência do movimento, o que será que eles estão tramando, meu Deus? Pena que as coisas sejam tão sérias.
Posted
4:06 PM
by Vanessa
LONDRES, 40 GRAUS Rapidinhas e futeis:
- dentro do metro de Londres, 42 graus Celsius. Por lei, no Reino Unido, eh proibido transportar gado nessas condicoes. Mas nada contra passageiros de transporte publico.
- As linhas dos trens esquentam tanto que os trens param. Se esta muito frio, os trens param tambem.
- Os onibus, projetados para o frio, nao tem janelas que abrem. Na parte de cima dos onibus de dois andares, dizem, a temperatura chega a 50. As pessoas se amontoam embaixo e ninguem sobe.
Ninguem percebe, mas Sao Paulo tem transporte de primeiro mundo.
Posted
11:07 AM
by André